Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

Democracia em Vertigem rompe com a narrativa jornalístico-policialesca e traz os atores políticos para perto da tela, por Frederico M. Neto

O uso de imagens de arquivo é excelente, além do mérito da diretora usar com precisão os registros feitos pelo fotógrafo oficial do ex-Presidente Lula, Ricardo Stuckert

O presidente Lula em cena de Democracia em Vertigem

Lançado na plataforma NETFLIX no dia 19/06/2019, no esdrúxulo Dia do Cinema Brasileiro, o documentário Democracia em Vertigem é o terceiro longa da diretora Petra Costa, que faz um recorte dos quatro mandatos presidenciais ganhos pelo Partido dos Trabalhadores, incluindo aí uma atenção maior ao impedimento da presidente Dilma e a prisão do ex-presidente Lula. Não se trata de um filme militante ou de análise, se trata de filme de testemunho pessoal sobre o estado de coisas da política brasileira contemporânea.

A diretora parte da trajetória da vida de seus pais, que nascidos em famílias ricas, abraçaram o ideário de esquerda na juventude, chegando a viver clandestinamente no Brasil durante a ditadura civil-militar (1964–1985), para por a sua trajetória de vida em paralelo com a trajetória da ciclo histórico da Nova República. Algumas semelhanças de dispositivo e abordagem de seu primeiro longa Elena (2012), sobre a sua irmã, são aprimorados na narrativa como o uso de imagens de arquivos pessoais, que são intercalados com registro históricos do Brasil.

A voz documental praticada pela realizadora passa de comentários tolos até a sutis observações dos processos políticos, como a decupagem da posse de Dilma Rousseff e o distanciamento, já presente, entre ela e seu vice, o famigerado político conservador Michel Temer. Alguns clichês de filme brasileiro ativista são notados no decorrer do filme — os longos planos aéreos em slowmotion de Brasília e do Palácio do Planalto, os planos contemplativos dos interiores do Palácio da Alvorada, a justaposição entre a trajetória de Lula/PT e de toda a esquerda brasileira, a heroicização do líder carismático — não deixam de ter uma verdade na voz documental adotada pela cineasta, mas as vezes tende para um tom ‘poliana petista’, onde as críticas aos problemas do próprio PT e as suas gerências passam por um raciocínio despolitizado e tolo, próprio da perspectiva de classe que a própria cineasta se coloca, a pequena burguesia ilustrada e de esquerda.

Os erros e arrependimentos de Dilma e Lula são registrados em depoimentos íntimos, como a questão da regulamentação dos meios de comunicação no Brasil, a política fiscal e as desonerações. As cenas de bastidores e até conversas triviais em âmbito doméstico conseguem traduzir os dilemas da macropolítica em trânsito. Alinhado ao excepcional trabalho de montagem, que demonstrou um poder de síntese raramente visto no cinema, com edição e trilha sonora tecnicamente impecável.

O uso de imagens de arquivo é excelente, além do mérito da diretora usar com precisão os registros feitos pelo fotógrafo oficial do ex-Presidente Lula, Ricardo Stuckert. Petra consegue intercalar cenas marcantes da história brasileira com registros pessoais de sua família, criando uma ponte entre o trivial da vida doméstica com a magnitude da vida política.

Democracia em Vertigem consegue romper um pouco com a narrativa jornalístico-policialesca criada para derrubar os governos petistas, para trazer os seus principais atores políticos para perto da tela, imprimindo sensibilidade e emoção em seu filme. Entretanto, a realizadora parece não levar em conta alguns meandros da sociedade brasileira e seus arranjos políticos. Na atual conjuntura o filme funciona, mas daqui uns anos ele pode se tornar anacrônico ou bajulador.

Publicado originalmente em 20/6/2019, por Cinestésico

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