Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

Petra Costa se insere no grupo dos que lançaram mão da linguagem documental para levar a política brasileira ao cinema, por Sílvio Osias

Que ninguém cobre imparcialidade de Petra Costa. Não havia no Tendler de Jango nem no Coutinho de Cabra Marcado Para Morrer (ou, para sairmos daqui, muito menos no Michael Moore de Fahrenheit 9/11

Cena do documentário Democracia em Vertigem

O documentário político tem tradição no cinema brasileiro.

Vou destacar um ano em especial: 1984, o ano da campanha pelas eleições diretas para presidente. Em 1984, Jango, de Sílvio Tendler, e Cabra Marcado Para Morrer,de Eduardo Coutinho, chegaram aos cinemas. Eram visões distintas do Brasil da ditadura militar. Jango, sob a perspectiva da elite. Cabra Marcado Para Morrer, do povo.

A cineasta mineira Petra Costa é de julho de 1983. Tinha, portanto, menos de um ano quando esses filmes foram apresentados ao público com êxito superior ao que os documentários costumavam ter. Podemos dizer também que ela tem quase a mesma idade do ciclo democrático iniciado, em 1985, com o fim do regime militar e a volta dos civis à presidência.

Hoje, aos 36 anos, ao realizar Democracia em Vertigem (disponível na Netflix), Petra não só se insere no grupo dos que lançaram mão da linguagem documental para levar a política brasileira ao cinema, como exibe admirável domínio do formato.

Que ninguém cobre imparcialidade de Petra Costa. Não havia no Tendler de Jango nem no Coutinho de Cabra Marcado Para Morrer (ou, para sairmos daqui, muito menos no Michael Moore de Fahrenheit 9/11). Democracia em Vertigem é um filme de esquerda, um documentário que toma partido e precisa ser visto como tal.

O avô de Petra foi fundador da construtora Andrade Gutierrez. Já o pai e a mãe enfrentaram a clandestinidade na luta contra a ditadura. O Petra do seu nome é uma homenagem ao Pedro do líder comunista Pedro Pomar, executado em 1976. A cineasta tem os dois olhares e elementos que outros não têm para se colocar dentro da história.

Democracia em Vertigem é narrado na primeira pessoa. Começa e termina naquele sete de abril de 2018 em que Lula foi preso, depois de passar quase 24 horas dentro da sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, com o prédio cercado por centenas de militantes.

O filme reconstrói essa história recentíssima do Brasil. De vez em quando, revisita o passado. JK e Brasília. A deposição de Jango. As greves do ABC. Mas se debruça mesmo sobre os últimos anos. Lula, Dilma, Temer, as manifestações de 2013, a Lava Jato, Moro, o impeachment, os escândalos, os vazamentos, as prisões.

Reúne grandes imagens e preciosos depoimentos numa narrativa irresistivelmente ágil, no estilo do melhor cinema documental . Emociona quando vemos Brasília do alto ao som da Bachiana de Villa-Lobos ou quando Lula se movimenta entre os políticos no dia da posse, e a música que se ouve é um pequeno trecho da protofonia de O Guarani, de Carlos Gomes. Sons que vão fundo nas raízes do Brasil e no seu destino como Nação.

O PT decepcionou Petra Costa. Isso está no filme. Gilberto Carvalho faz a autocrítica que o PT não fez. Isso também está no filme. Bolsonaro entra em cena com a narrativa já adiantada. Bolsonaro sendo Bolsonaro, defendendo o torturador Ustra, um fenômeno subestimado pela esquerda, pelas forças progressistas, pelo campo democrático.

Jair Bolsonaro foi eleito seis meses depois da prisão de Lula. Sérgio Moro é o ministro da Justiça de Bolsonaro. Lula permanece preso. É o que temos ao final de Democracia em Vertigem. O que o futuro reserva para a democracia brasileira? Esse filme de Petra Costa é muito necessário.

Publicado originalmente em 26/6/2019, em Jornal da Paraíba

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