Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

Petra Costa prefere a honestidade e a coragem do documentário narrado em primeira pessoa, por Ana Cecília Costa

Só se fala de Democracia em Vertigem, o novo documentário de Petra Costa, que repassa a política do Brasil dos últimos anos. Convidei, então, a atriz Ana Cecília Costa, que está interpretando uma refugiada síria em Órfãos da Terra, a novela das 6, da Rede Globo, para escrever um texto a respeito. Ficou perfeito! Confira abaixo:

A diretora Petra Costa

Democracia em Vertigem, documentário de Petra Costa, foi um dos filmes que tive mais dificuldade de ver em toda a minha vida — e olhe que já assisti a muita coisa barra-¬pesada! Eu o vi sozinha e, por vezes, tive de parar e criar coragem para seguir adiante — aquelas imagens me trouxeram à tona dores ainda latentes. O registro passa a limpo os principais fatos políticos do Brasil de 2013 a 2018 — manifestações de rua, a eleição de Dilma em 2014, o processo de impeachment da presidente eleita em 2016, a Lava-Jato capitaneada pelo juiz Sergio Moro, o julgamento e a prisão do ex-¬presidente Lula, a eleição de Bolsonaro em 2018. Mas a diretora não constrói uma narrativa distanciada, impessoal, em terceira pessoa, típica do documentário que pretende ser “a voz da verdade”, um suposto relato “objetivo” da realidade e em cuja tradição se filiam os principais telejornais da grande mídia brasileira.

Trilhando o caminho de outros diretores, como João Moreira Salles em No Intenso Agora, a cineasta prefere a honestidade e a coragem do documentário narrado em primeira pessoa, no qual fatos e personagens passam pelo filtro da subjetividade do autor. Petra esclarece, de largada, seu “lugar de fala”: uma brasileira branca, eleitora de Lula e Dilma, filha de pais militantes de esquerda e neta do dono de uma das mais ricas construtoras do país. Ela traz contradições de uma nação que tenta decifrar e, assim, costura cenas da macropolítica do Brasil com imagens de arquivo da sua família. Segue-se uma sucessão de fatos, distribuídos em um vasto, rico e privilegiado material audiovisual, muito bem montado, para dar cabo à árdua tarefa de reconstruir e traduzir a vertiginosa queda livre da democracia.

Entendo que o protagonista do filme não seja Lula, nem Dilma, nem nenhum político, mas sim o Brasil, “um país moldado pela escravidão, por privilégios e por golpes”. A motivação de Petra não é partidária — é histórica. Diz ela: “Eu e a democracia brasileira temos quase a mesma idade, e achava que, em nos nossos trinta e poucos anos, estaríamos pisando em terra firme”. Como Petra, eu achava que caminhava em uma democracia cimentada, mas deparo com buracos estruturais que nunca foram reparados. É difícil ir adiante em meio à falência das instituições. Somos uma geração traumatizada e em vertigem”.

Publicado originalmente em 28/6/2019, por Veja São Paulo

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