Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

Democracia em Vertigem entra na história profunda de um país sustentado em colonialismo e escravidão, por Alejandra Portela

Se as eleições intermediárias na Argentina não geraram a perspectiva política que elas geraram, pudemos ver o que acontece em Democracia em Vertigem, o contundente documentário de Petra Costa sobre a história do Brasil nos últimos 4 anos, como um ameaça confiável e concreta à nossa própria democracia.

As experiências que ele revela, tão estonteantes e conflitantes, mostram um Brasil com um sistema político medieval, como definido por um analista político estrangeiro. Lula da Silva, chefe sindical da metalurgia e fundador do Partido dos Trabalhadores do PT, duas vezes presidente do Brasil, após pelo menos 4 tentativas frustradas de chegar à Presidência, encerra seu mandato com 80% de imagem positiva, e acaba encarcerado em abril de 2018 por uma causa de compra de um apartamento. Sua sucessora, Dilma Roussef, foi destituída em 2016 após longas sessões do congresso muito bem documentadas no documentário (cativo) O Processo, de Maria Augusta Ramos.

Esses fatos, enraizados na própria história do Brasil, país que viveu um período muito longo de ditadura entre 1964 e 1985, são contados a partir de uma voz subjetiva que é a da própria cineasta que tem praticamente a mesma idade da democracia brasileira. Vindo de uma família de construção, os pais de Petra lutaram contra aquela ditadura e viveram escondidos por anos. Fotos de família e vídeos comprovam que a história pessoal da qual o documentário não parte em suas duas horas. No momento da descrição desses momentos, as imagens de arquivo de um jovem Lula da Silva, o condutor das greves massivas que acelerariam a chegada da democracia, aparecem mais tarde. Todo esse conjunto de imagens, de seus pais, das manifestações contra a ditadura e de Lula, sobre os trabalhadores grevistas, pode ser comparado em termos simbólicos com o momento em que sua mãe, já mais velha, sai em busca de um encontro com Dilma Rousseff. Ambos haviam se encontrado na prisão que os levara prisioneiros e a reunião está registrada neste documentário com ternura e objetividade.

O que ele alcança nesse quadro é que o familiar e o político estão ligados, de modo que não há dúvida sobre o que as coisas devem ser entendidas para entender todo o resto. Uma dimensão íntima em que Costa está certo quando consegue comunicar essa emoção e paixão, semelhante àquelas das multidões gritando os nomes de seus líderes em coro. Os primeiros planos tanto de Lula quanto de Dilma, seu confronto com o establishment, uma reverberação de interesses econômico-familiares, político-religiosos e político-econômicos é letal para um partido que aborda os problemas dos pobres, marginalizados e despossuídos. e que ele é demitido por um golpe de estado legislativo e judicial.

“Lula fazia os aeroportos parecerem terminais de ônibus”, costumavam dizer com desprezo, referindo-se àqueles que menosprezavam a possibilidade que os pobres tinham de viajar de avião na época do PT.

Costa recorre essencialmente a repetições significativas de três espaços: a rua como lugar de confronto entre os dois lados; Brasília como o lugar onde o golpe é tramado e a casa presidencial, o belo palácio da Alvorada, largo e vazio, no qual uma das faxineiras dirá que teria preferido confiar na democracia. A arquitetura de Niemeyer é uma testemunha silenciosa desse estado de conflito.

Este documentário dialoga com outros dois documentários que também podem ser vistos na Netflix: de um lado, com O Processo, de Maria Augusta Ramos, a parte mais cruel do processo que denunciou, atacou e enfraqueceu por meses o governo de Dilma Rousseff e que finalmente conseguiu sua demissão em 31 de agosto de 2016. Por outro lado, e não mais especificamente sobre o Brasil. Nada é Privado sobre o roubo de dados das redes sociais para manipular campanhas políticas em torno de fortes polarizações sociais.

De qualquer forma, o testemunho documentado por Petra Costa sobre a chegada da ultra-direita à presidência do Brasil, dos acordos com o partido que trairia o PT e o fracasso dos processos de constitucionalidade naquele país, é valioso porque que ultrapassa um passado imediato e entra na história profunda de um país sustentado em uma história de colonialismo e escravidão.

Publicado originalmente em 17/8/2019, por Leedor

Traduzido por Google Tradutor

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