Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

Democracia em Vertigem é o ecoar calmo e controlado de um grito antes contido, por Natalia Costa Rugnitz

Democracia em Vertigem, o filme de Petra Costa lançado recentemente, é bem mais do que um documentário: é um em si mesmo um documento histórico.

Ali se registra, por exemplo, a existência das duas (perturbadoras) placas no Palácio da Alvorada: em um canto, aquela que celebra as “reformas” realizadas na época do Collor; no outro, as feitas quando era o Lula que estava lá; em ambas: o nome de várias (senão de todas e cada uma) das empresas construtoras envolvidasnos escândalos de corrupção que tanto mal-estar têm provocado nos últimos anos no Brasil. Conteúdos deste tipo dão ao trabalho uma relevância que vai para além da cinematografia. De fato, no sentido documental, a obra já é, e seguramente se tornará cada vez mais, uma referência imprescindível no tumultuado esforço conjunto no qual nos encontramos: aquele de elaborar uma narrativa minimamente coerente da situação política do pais após a Lava Jato.

O filme é também uma testemunha; uma construção completamente atravessada pela experiencia subjetiva; um relato não ficcional em primeira pessoa. Sendo a subjetividade um universo perigoso onde, como se sabe, a opinião se solidifica demasiado facilmente no dogma, uma especial atenção se torna necessária neste ponto.

Para a feliz surpresa do público, no entanto, a testemunha de Petra está suficientemente livre de dogmas e maniqueísmos. O que se comunica são as peripécias de um ideário sólido e nítido, um ideário – é verdade – constituído por premissas e valores claramente de esquerda, defendidos com fervor na teoria e na prática; contudo, se trata afortunadamente de um ideário aberto; sólido, porém não solidificado. A circunstância de Lula, por exemplo, é encarada de perto e de frente, com respeito e admiração mas também, e sobretudo, com inquietude e angústia.

A testemunha de Petra Costa é, assim, um ato de extrema sinceridade e coragem. Digo sinceridade desde um ponto de vista não tanto argumental, mas emocional ou intuitivo: na reflexão (confissão?) realizada ao longo do filme transparece um sentimento conhecido

A testemunha de Petra Costa é, assim, um ato de extrema sinceridade e coragem. Digo sinceridade desde um ponto de vista não tanto argumental, mas emocional ou intuitivo: na reflexão (confissão?) realizada ao longo do filme transparece um sentimento conhecido; uma espécie de espanto, nascido talvez da mera possibilidade de que a utopia se desmorone e arraste junto a esperança, jogando-nos nova, final e fatalmente em um niilismo que já não mais seremos capazes de suportar. Esse sentimento é colocado recorrentemente de modo oblíquo, e muitas vezes de modo explícito, por exemplo quando, na forma da interrogação direta, se questiona se a evolução da democracia brasileira nas últimas décadas não terá sido apenas um sonho efêmero. Digo coragem não apenas por colocar assim, aberta e friamente, essa pergunta terrível (que no geral a massa militante é incapaz sequer de pronunciar), mas fundamentalmente por utilizar a vida pessoal como material bruto de trabalho.

Petra Costa oferece não somente uma reflexão aguda e lúcida, mas se oferece a si mesma. Ela abre seus próprios arquivos e memórias e os entrega ao domínio público. Com isso, a inteira obra exala os vapores do genuíno.

A autora parte, então, da sua própria biografia. Sua voz, portanto, é uma voz situada. E a sua situação é em tudo excepcional: neta de G. D. de Andrade, um dos fundadores da Andrade Gutierrez (conhecida empreiteira protagonista da novela da Operação Lava Jato), Petra Costa é, ao mesmo tempo, filha de militantes do PCdoB, ativos à par da própria Dilma durante as duas décadas de ditadura no Brasil. A circunstância de Petra Costa é, em fim, além de excepcional, privilegiada. E a autora faz bom uso desse privilégio.

Voltaremos em outros posts sobre isso. Voltaremos também para falar sobre a qualidade estética do filme, tão fina e bem resolvida quanto o seu conteúdo. Voltaremos para dizer uma palavra sobre os entrevistados, tanto os políticos “de alto escalão” (que Petra persegue e questiona com uma insistência que, mais uma vez, revela o seu compromisso existencial com a causa) quanto os “simples”, entre os quais focaremos naquele da faxineira da Alvorada, que em um surto de lucidez coloca uma outra reflexão terrível mas pertinentíssima: e se a democracia, na verdade, não existisse? Mais ainda: e se ela não existiu nunca nem existirá jamais? Voltaremos sobre Brasília, essa outra utopia em xeque. E voltaremos, sobre tudo, para levar adiante a análise conceitual.

Por enquanto, uma reflexão conclusiva para esta aproximação inaugural:

O filme Democracia em Vertigem, de Petra Costa, é o retrato vivo de uma época. Um retrato complexo; como mínimo, duplo: por um lado, objetivo, documental; subjetivo pelo outro, biográfico, brutalmente íntimo. E esse retrato e essa intimidade são de Petra, mas são também nossos. Mas quem somos nós? Uma geração engajada com a res publica, que cresceu acreditando em um “mundo melhor” no qual a maioria fosse incluída com cuidado e respeito em uma “verdadeira” sociedade democrática. Palavras como solidariedadejustiça, equidade, comunidade se fixaram no nosso imaginário com maior peso que outras como riqueza, prazer, poder, propriedade… com maior apelo, inclusive, que a palavra liberdade. A voz em off que relata, em primeira pessoa, a história recente do Brasil em Democracia em Vertigem é o ecoar calmo e controlado de um grito antes contido, difuso, furioso, desesperado e, por sobre todas as coisas, compartilhado.

Publicado originalmente em 26/7/2019, por Open Philosophy

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