Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

Petra Costa contrapõe a historicidade dos fatos públicos com sua narrativa particular, por Rodrigo de Abreu Pinto

Diferente da abordagem apartada que apenas olha o mundo, a subjetividade participa dele ao mesmo tempo que conserva a autonomia de também tomar distância e examinar a própria participação

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Difícil quem não tenha se deparado com a impossibilidade ao tentar explicar nossa história recente. A pulsão por Democracia em Vertigem nasce do seu desassombro em erguer uma contra-narrativa decidida a intervir no debate público, sem medo de retomar as totalizações, os diagnósticos amplos, as grandes teses sobre a Nação que se tornaram incomuns no cinema brasileiro. Para tanto, a diretora Petra Costa lança um olhar prospectivo sobre os últimos anos, recuperando momentos perdidos e atando pontas soltas, para então narrar os consecutivos tropeços da democracia brasileira. A vertigem, nesse sentido, é o momento que precede a verdadeira queda, representada pela guinada de Jair Bolsonaro que fecha o filme, após acompanharmos o percurso que vai da eleição de Lula, passando pelo impeachment de Dilma, até a prisão do ex-presidente. Assim como a democracia caiu do alto, o documentário também olha de cima e corre o mesmo perigo, pois o atrevimento em sair do particular cresce junto ao risco da complexidade do todo ser traída pela simplicidade sedutora da síntese.

No primeiro nível, o documentário narra os eventos cronologicamente, sem abrir mão do tom didático e a aparência de absoluta coesão, tentando lançar luz sobre significações históricas que a enxurrada de notícias pode ter turvado. No entanto, à essa altura, não basta adotar um ponto de vista pragmático e tornar a história um espaço de significações claras, até porque a organização genealógica dos mesmos fatos já foi feita por trabalhos jornalísticos de fôlego (caso da reportagem da BBC dirigida por Kennedy Alencar). O cinema, no mais das vezes premido por demorados esquemas de produção, se diferencia da cobertura imediata ao assumir características distintas da reportagem, como o tom mais reflexivo que comunicativo, a condução menos retórica das entrevistas, o respeito à duração do material. O objetivo não é outro senão alcançar causas e circunstâncias mais profundas, além do que a realidade oferece na superfície, para erguer uma história que ultrapasse uma série de fatos articulados por relações de causa e efeito autossuficientes.

Sendo assim, no segundo nível, Petra Costa contrapõe a historicidade dos fatos públicos com sua narrativa particular, escolhendo o Eu e sua intimidade como lócus privilegiado de acesso ao real. Diferente da abordagem apartada que apenas olha o mundo, a subjetividade participa dele ao mesmo tempo que conserva a autonomia de também tomar distância e examinar a própria participação. Por isso, o cinema em primeira pessoa pode se valer dessa plasticidade para induzir procedimentos como quebras na temporalidade e conflitos ético-subjetivos entre a voz que fala e o mundo objetivo, configurando uma dimensão latente que constantemente problematiza a superfície dos eventos. A eficácia depende da submissão das coisas à tortuosidade subjetiva do/a autor/a para que, nessa submissão induzida, os fatos do mundo revelem uma outra face, inclusive preenchendo vazios que a razão não apreende quando analisa em linha reta.

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A dificuldade em Democracia em Vertigem é que inexistem dobras entre a primeira e a segunda estrutura, uma vez que a subjetividade da diretora e o mundo persistem numa continuidade sem fissuras. Ao mirar o processo histórico recente, Petra Costa faz questão de ver a si mesma: ela e a democracia tem quase a mesma idade; os antigos sonhos dos pais são os mesmos sonhos dela; a ex-presidente é também quem foi presa e torturada como sua mãe; a divisão política do país não mais que reprodução ampliada da cisão no interior da sua família. Em lugar de uma tensão entre a subjetividade e o horizonte histórico que analisa, a realizadora traz sua vida pessoal com todo o lastro de autenticidade da operação (a voz da narradora, as pequenas confissões, as imagens da infância) para reencontrar um presente com os mesmos personagens, posições, desejos, mitos. Essa subjetividade transparente em tudo difere de outros filmes em primeira pessoa nos quais atributos psicológicos (repetições traumáticas; entraves de nomeação; desejos recalcados; dificuldades de lembrar e subjetivar a experiência) distorcem, condensam e deslocam os materiais do primeiro plano. Aqui, ao contrário, assistimos uma subjetividade sem maiores abismos entre si e o mundo, portanto, à vontade para hipertrofiar e espalhar uma tristeza doce e comedida, sem jamais cair em contradição, titubear a fala ou perder o senso de equilíbrio, lançando um olhar sentimental e cheio da auto-indulgência de quem se sabe do lado certo da história.

Petra Costa transporta a rixa familiar para o âmago da divisão do cenário político, assentando o presente político em um espaço de representação que rapidamente congela os atores na estabilidade do bem e do mal, fixando os lados e retirando-lhes complexidade. Ela afirma: “De um lado, a história da elite da qual meus avós fazem parte. Do outro, a história dos meus pais e a esquerda que eles sonharam que está desmoronando.” Fazendo assim, mesmo quando parte para entrevistas, os entrevistados parecem não ter vida própria, capturados dentro de um esquema cerrado em que os lugares originais (próprios, estáveis e identitários) estão dados de antemão, enquanto ao espectador resta a escuta passiva e a verdade voyeurística. Nessa simplificação da realidade, sobressaem leituras óbvias mas não menos equivocadas, como a hipervalorização da “reconciliação” para vitória de Lula em 2002, muito embora as poderosas imagens dos militantes do PT sugiram outros vieses. Já Junho de 2013, enquanto uma manifestação contra um governo de “esquerda”, não poderia ser outra coisa senão de “direita”, pois o contrário exigiria que o filme adicionasse camadas que ele não está disposto, revelando-se à vontade no maniqueísmo mas avesso ao antagonismo propriamente dito. Não por outro motivo, o filme entra rápido demais (com apenas um quarto de filme) nos julgamentos do impeachment de Dilma e da prisão de Lula, onde a métrica jurídico-criminal transforma todos em inocentes ou culpados (e os espectadores em defensores do sim ou não), o que se acomoda facilmente ao lustro moralizante que o filme progressivamente assume a reboque da narradora.

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À medida que a subjetividade da personagem se hipertrofia, ela serve à mitificação despropositada do processo político, nisso incluindo os planos aéreos com drones, o apreço ao interior desabitado e silencioso do Palácio da Alvorada, a trilha sonora grandiosa. A figura sobre quem mais recai essa aura é Dilma Roussef, de quem o filme se aproxima através de um modo de escuta delicado e íntimo, onde até mesmo seu aparelho de CD antigo revela um despojamento surpreendente, garantindo uma humanização e aprofundamento do seu caráter aos olhos de quem vê. O momento mais sintomático é o encontro entre a mãe de Petra e a ex-presidente que materializa a continuidade simbólica entre o passado e o presente, o interior familiar e o exterior publico, na medida em que o filme sublinha as semelhanças entre ambas (mulheres, mineiras e militantes presas na ditadura) e se vê no limite de sugerir que o destino de Dilma poderia ter sido o da mãe de Petra e vice-versa. O caráter reacionário da simbiose entre passado/presente e público/privado fica bem expresso na conversa entre ambas, onde o encontro surte o lamento de que já não podem gozar do mesmo anonimato e liberdade de quando estavam na clandestinidade.

O isolamento e a tristeza de Dilma, sentimentos virtuosos e cheios de verdade, são destacados também em outros momentos, como ao circular sozinha nos corredores ou assistir desacompanhada o julgamento do impeachment. Mesmo na oportunidade em que se defende no plenário do Congresso, o filme não mostra as partes que ela discute os elementos concretos do processo, mas suas lembranças da ditadura e do câncer que enfrentou. Apresentando assim, tudo se passa como se o impeachment fosse uma conspiração indigna que agiu contra a presidente cujas virtudes não combinam com a sujeira do mundo da política, sobretudo porque o filme faz questão de mostrar que foi Lula que a pôs ali quase à sua revelia. Para além das dinâmicas reais de poder, fica a impressão de que Dilma foi empurrada para fora por causa do seu caráter, individualizando o que era coletivo, histórico, sistêmico. Assim como a diretora ironiza com os deputados que dizem que Dilma saiu porque “não pegou a mão dos deputados” ou “não foi boa cozinheira”, o filme reforça a mesma posição de fragilidade da ex-presidente.

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Mais do que um sintoma local, a estratégia que Petra Costa lança mão é representativa de um espírito de época que a ultrapassa, do qual estão sujeitos artistas e intelectuais que se propõem a criar formas de consciência e afetos que modifiquem o presente. Ao passo que a realidade já não é mais relativizada por um horizonte de superação futura, essa impossibilidade de uma alteridade radical torna tentador que efetuemos o corte para o interior e o passado como meios de compensação simbólica. Como escreveu Rodrigo Naves, “na ausência de uma força social poderosa que fizesse vislumbrar novas possibilidades, parece restar apenas essa utopia rememorativa e docemente anticapitalista, a única a fornecer indícios reais de um novo tipo de sociabilidade”. Em nosso caso, à medida que o presente se transforma num reflexo imperfeito do passado, o ônus dessa operação é que a dívida histórico-social com os de baixos (que animava a geração dos pais da diretora) é trocada por um acordo genérico com a democracia.

Investido da urgência tão necessária quanto ambígua em relação ao agora, o filme se esforça em escutar o apelo “democrático” do passado, assim como se entrincheira num horizonte estreito de significações para viabilizar uma apreensão objetiva e imediata da história recente. Se é certo que Democracia em Vertigem, ao abrir mão de qualquer indefinição ou opacidade, prescreve apenas um acesso paralítico ao presente, não é menos certo que também se abre ao estrangeiro ao assumir os dogmas da competência narrativa, comunicabilidade e padrão Oscar que fazem do filme um exemplar abstrato de uma democracia periférica em curso de desaparecimento, ao gosto da curiosidade internacional. A questão é que, ainda que a conformação violenta da matéria jogue alguma luz no processo, toda essa receita destrói o que permanece às sombras, a saber, os possíveis que ainda não foram elevados à sua máxima potência. Em dados momentos, é mais inteligente admitir que o passado não explica o presente e que somente o futuro poderá fazê-lo.

Publicado originalmente em 9/7/2019, em Cinética

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