Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

Cineasta Petra Costa expõe as feridas do Brasil, por Le Monde

Cineasta Petra Costa expõe as feridas do Brasil, por Claire Gatinois para Le Monde

Com base em sua própria história familiar, a diretora filmou o documentário “Democracia em vertigem” (Une démocratie en danger). Aclamado pela crítica, este filme traça a recente e turbulenta história política do seu país.

A plateia se espalhou pelo chão, pressionando-se nas extremidades da sala. Na segunda-feira, 24 de junho, assistimos  Democracia em vertigem ( Une démocratie en danger, na Netflix desde 19 de junho) na Casa do Baixo Augusta, centro cultural no coração de São Paulo. O documentário da cineasta brasileira de 35 anos, Petra Costa, conta a história da loucura de seu país, desde os protestos de 2013 até a ascensão do líder de extrema direita Jair Bolsonaro, em 2018, passando pelo impeachment  da polêmica da presidente de esquerda, Dilma Rousseff, à  terrível detenção de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.  O filme foi recebido com estrondoso aplauso.

Mas levou apenas um minuto para que esse público benevolente ficasse enfurecido no debate que se seguiu.  Um dos oradores, jornalista da Folha de S.Paulo , foi severamente criticado por seu jornal ter feito duras críticas  contra o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula. Em seguida o público vaiou o colunista pelo papel complacente do jornal durante a ditadura  militar (1964-1985).

Aumentando a polarização

Na sala, Petra Costa olha para baixo, ciente de que seu longa-metragem expõe as lágrimas de um bravo Brasil, tanto de seu presente como de seu passado. “Eu entendo essa revolta”, diz ela. Seu filme, elogiado pelos críticos, fala da recente e turbulenta história política do país, mas também de suas próprias ansiedades relacionadas à perda desses valores que se pensava terem sido conquistados: os da justiça, da igualdade e do respeito à lei. “A democracia e eu somos quase da mesma idade”, disse se dirigindo à plateia, agora mais calma.

Foi em 2016, durante as grandes manifestações em favor do impeachment, que a diretora resolveu usar sua câmera. Ela queria analisar essa crescente polarização da sociedade, inspirada no documentário de Patricio Guzmán narrando os meses que antecederam o golpe militar, A Batalha do Chile. Sentindo agressão em uma parte da população gradualmente seduzida pelo líder da extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, capitão de infantaria nostálgico da ditadura militar, a diretora diz que sentiu uma dor quase comparável à perda de sua irmã, Elena. Uma querida irmã, atriz, criada sob o terror dos militares, que cometeu suicídio aos 20 anos, a quem Petra Costa dedicou seu primeiro documentário em 2012.

“Senti um tremendo sofrimento, mas desta vez por  meu país”, diz ela . Seu filme, que deveria ser a narração objetiva de eventos políticos tumultuados, se transformou em uma narrativa deliberadamente subjetiva, conjugada com na primeira pessoa. Através de sua história, a diretora incorporou esse Brasil assombrado por sua própria memória. “Petra tem uma história familiar agitada, o que lhe permite ter uma boa noção do assunto”, diz o historiador Luiz Felipe de Alencastro.

Uma mãe perseguida

Vinda da burguesia, Petra é filha de ativistas de extrema esquerda presos sob a ditadura. Ela também é neta de empresários ricos do estado de Minas Gerais que apoiou  a junta militar. Na década de 1960, seus avós maternos, a família Andrade, co-fundadores da construtora Andrade Gutierrez, consideraram o regime militar o melhor baluarte contra o comunismo, o que os assustava. Sua filha, a mãe de Petra, foi na época caçada pelo regime e viveu escondida.

Trinta anos depois, parte de sua família está envolvida no escândalo de corrupção revelado pela operação “Lava Jato”, orquestrada pelo juiz Sérgio Moro ,que caiu na graças de um militar, Jair Bolsonaro, defensor da tortura e prometendo exílio aos seus inimigos políticos.

Extrema direita desinibida

Como Petra, a esquerda brasileira está em pânico: o Brasil pode ter uma memória tão curta? “A situação atual não tem nada a ver com o período ditatorial. O Brasil é hoje uma democracia com uma sociedade civil desenvolvida”, diz Luiz Felipe de Alencastro. Mas a extrema direita, ontem envergonhada, agora está desinibida. Usando imagens de arquivo de anos de luta pela democracia, pontuadas por grandes greves lideradas por Lula, contíguas às dos acontecimentos recentes, o filme é uma mise en abyme,* mas também uma psicoterapia, para a diretora e para o público. Ela tem esperança em seu país.

“Contar traumas é o primeiro passo na cura”, diz ela, citando Freud. Democracia em Vertigem entrou para o ranking dos melhores filmes do New York Times de 2019, o que dá vertigem aos brasileiros, bem como a outras democracias mais antigas que agora são hostilizadas.

* Mise en abyme é um termo em francês que costuma ser traduzido como “narrativa em abismo”, usado pela primeira vez por André Gide ao falar sobre as narrativas que contêm outras narrativas dentro de si. Mise en abyme pode aparecer na pintura, no cinema e na literatura.

Claire Gatinois (São Paulo, Correspondente)

Tradução pelo Google Tradutor

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