Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

IndieLisboa 2019 | O Cinema não morrerá até a verdade ser contada

31/5/2019 por Mário Oliveira na Séptima

Existem alguns momentos na minha vida que me ensinaram a ver cinema – e espero ter mais, e um desses momentos foi no dia 7 de maio, no qual considero que tive uma das melhores experiências cinematográficas. Uma simbiose perfeita entre um filme incrível e espectadores que se deixam tocar por ele…

A programação do “Brasil em Transe”, dentro da homenagem ao “Herói Independente”, foi um dos programas mais enriquecedores que o INDIELISBOA ofereceu neste ano. Foram bastante filmes, desde longas a curtas-metragens, com a particularidade de serem filmes bastante recentes e no conjunto formarem um cinema emergente e revolucionário – não só na forma, mas também no conteúdo. As questões políticas estão muito presentes nos filmes, mas existe uma carga de sarcasmo e ironia que carrega os filmes de uma leveza que torna estas cinematografias em algo único e inovador. Acredito que seja muito difícil de atingir a mistura perfeita entre o universo real, caótico e negro do estado das coisas – com uma visão mais leve e de esperança com grito de resistência sabendo que a “barra” não está muito fácil para os “autores” que olham para o lado onde amigos/familiares estão a viver momentos assustadores. Por isso, percebo a dificuldade e louvo esta ação de punho firme através do cinema.

Nessa terça-feira, o dia foi atípico e especialmente enriquecedor, graças à escolha não muito ponderada que fiz das sessões. Estava a chover e fiquei o dia todo no mesmo local (Cinema São Jorge) onde comecei a ver as curtas-metragens desta programação – Magalhães de Lucas Lazrini; Mais Triste Que Chuva Num Recreio De Colégio de Lobo Mauro; Vigília de Rafael Uban e Plano Controle de Juliana Antunes – e o que se abateu em mim foi aperceber-me que ali está algo diferente e novo. Mesmo em histórias que já conhecemos, e que são contadas de uma outra maneira, cortando com alguns cânones do cinema, a sentir uma liberdade de experimentar e arriscar que já não é tão fácil encontrar dentro de outros “cinemas”. Se ficasse pelas curtas já seria bom, mas aproveitei para ver Democracia em Vertigem um filme de Petra Costa (realizadora do Olmo e a Gaivota). Foi esse filme que me ofereceu uma experiência inesquecível e uma lição sobre cinema que, depois das curtas, foi a cereja no topo do bolo. O filme passou na sala Manoel de Oliveira com muitos lugares preenchidos e com pessoas muito expectantes para com a obra. O filme retrata a democracia jovem do Brasil, focando-se na ascensão e queda de Lula e Dilma. Numa outra linha a realizadora vai contando partes da vida dela, e da família, que se cruzam com a história da democracia brasileira. O filme também tem imagens inéditas de momentos cruciais, dos últimos anos, do caminho político do PT, que a realizadora capta com uma proximidade e naturalidade nunca antes vistas.

A realizadora é dotada de uma maturidade cinematográfica imensa, criando uma enorme empatia entre o filme e o espectador, fazendo com que fosse simples e tão forte tocar cada pessoa dentro da sala. O silêncio da sala era assombroso, conseguia-se ouvir o som das gargantas, a engolirem em seco, e ninguém desviava o olhar da tela, não para perceber o plot twist ou dessas coisas que parece que hoje em dia é o que interessam. Simplesmente estávamos todos a assistir a uma peça documental histórica que nos atira vertiginosamente para a realidade triste, mas crua de uma democracia em declínio.

Dentro da sala houve quem chorasse, gritasse e aplaudisse criando um vortex de energia que tenho a sensação de que toda a gente se deixou tocar. Fez me perceber que ainda é necessário ver filmes em sala, porque a partilha durante o filme é algo inexplicável e que num mundo cada vez mais egoísta onde vivo e cresço, isto é algo que leio em livros antigos de cinema mas que nunca pensei em experienciar.  

Para os mais céticos que leem isto e pensam que se trata de um filme de propaganda de esquerda acrescento, que o ponto do filme não é dizer se o Lula ou outros políticos do PT tem razão ou não, mas sim de termos a certeza absoluta de que a democracia está a ser gravemente ferida em muitos países. Muito particularmente no Brasil, e que é impossível negar que a história se repete mas nunca exatamente da mesma maneira…

A realizadora Juliana Antunes falou de algo muito interessante depois de passar a curta dela, que eu concordei em pleno, parafraseando foi mais ou menos isto: “Talvez os filmes não façam diferença para o mudar o estado das coisas mas que o cinema seja motivador para que as pessoas não se calem, que lutem e que saiam à rua”.

Obrigado e parabéns a todos os realizadores e realizadoras citados e não citados neste texto, que passaram os seus filmes nesta secção (Brasil em Transe) sendo os verdadeiros Heróis Independentes num país que tenta acabar com a cultura e a verdade de um povo. Que continuem a ter esperança e grito de resistência, e o cinema não morrerá até a verdade ser contada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *