Divertigem

Caixa de ressonância do filme Democracia em Vertigem

Sessão eletrizante sobre a queda de Lula da Silva emociona o IndieLisboa

8/5/2019 Roni Nunes em C7NEMA

O tema da política brasileira continua a não deixar ninguém indiferente e a exibição de Democracia em Vertigem, ocorrida ontem no São Jorge no âmbito do IndieLisboa foi mais uma prova. Com um óbvio apelo emocional, momentos de poesia e reflexão, imagens das ruas e dos bastidores, a obra de Petra Costa arrancou aplausos, risos, lágrimas e tornou as normalmente sóbrias exibições no festival de cinema independente numa sessão eletrizante.

Para quem tem acompanhado todo esse processo nos últimos anos, a longa-metragem, produzida pela Netflix e tornada acessível pela linguagem e seleção das informações a públicos estrangeiros, não apresenta grandes novidades – as quais, no entanto, não convém esquecer.

O filme desmonta os frágeis edifícios jurídicos que serviram tanto para a destituição de Dilma Rousseff (derrubada por uma minúscula questão de atraso de verbas públicas em 2016), quanto para a condenação de Lula da Silva em 2018, quando liderava as intenções de voto nas eleições. Neste último caso, um procurador na altura chegou a afirmar que o facto de não existirem contratos que provavam que o ex-presidente teria recebido um apartamento de uma construtora, “servia de prova” do seu ocultamento! Tais argumentações somaram-se às inúmeras irregularidades cometidas pelo juiz Sérgio Moro, que mais tarde viria a merecer um cargo no atual governo.

Numa sessão vibrante, os maiores aplausos foram para um dos muitos populares entrevistados pelas ruas durante as muitas manifestações onde, com a simplicidade, raciocinava sobre a exploração dos menos favorecidos para concluir com algo como: “o mundo é dos ricos e com Dilma e Lula os pobres tiveram algumas migalhas. Agora sem eles nem isso“.

Mas os maiores ovações foram para Jean Wyllys após o seu forte e emocional discurso durante a votação pela destituição de Dilma – uma manifestação que se reveste de significado ainda maior ao saber do seu futuro não muito longínquo (ele fugiu do Brasil depois da eleição de Jair Bolsonaro por não se sentir fisicamente seguro para exercer o seu mandato de deputado federal).

Já as risadas ficaram para as loucuras de Janaína Paschoal e seu agressivo “show off” num comício no Largo São Francisco que já rendeu todo o tipo de paródias e anedotas, mas que continua a impressionar com o seu histrionismo que exibe parentescos com a forma de mobilizar os fiéis dos pastores evangélicos. Já estes foram um capítulo à parte com os seus discursos na votação do “impeachment” apesar de, obviamente, o momento nada ter de cómico. Um deles é Eduardo Cunha, articulador da destituição de Dilma e, posteriormente, condenado a 15 anos de prisão por corrupção.

Nestas alturas, o atual presidente era apenas secundário, surgindo em momentos onde ressuscita um dos mais infames torturadores do regime militar brasileiro e o único condenado por tal prática, o coronel Carlos Alberto Ustra ou quando profere violentos discursos militaristas que espantosamente acabaram por cativar radicais e, pelo menos, não assustar as massas da classe média que formariam os seus futuros eleitores. Diferente de Petra Costa e do seu público no São Jorge, para estes não pareceria estar em causa nenhuma vertigem da democracia.

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